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Sem amarras no debate democrata de Nevada

Em debate acalorado, os candidatos democratas buscaram neutralizar os dois nomes com maior tração até o momento: o líder da corrida eleitoral Bernie Sanders e o bilionário recém-chegado Michael Bloomberg

O debate entre os candidatos das primárias democratas na última quarta-feira (19) em Las Vegas, Nevada, foi quente, para dizer o mínimo. Reunindo os seis postulantes mais bem colocados na disputa pela nomeação do partido para enfrentar Donald Trump, o encontro já prometia um nível de tensão ainda não testemunhado noutras ocasiões, em especial por conta da “estreia” do bilionário ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg. O evento democrata em Nevada acabou sendo marcado por ataques por todos os lados.

Entre os outros fatores resultantes do nível de acirramento no debate estão a proximidade do caucus no estado neste sábado (22), a disputa entre os candidatos “moderados” e uma nova pesquisa nacional divulgada nessa quarta-feira (19), apontando um avanço na liderança de Bernie Sanders.

Poucos dias antes do caucus de Nevada, o senador de Vermont mostrou mais uma vez sua posição de favorito na disputa com 31% das intenções de voto, um aumento de oito pontos percentuais em relação à pesquisa divulgada em 23 de janeiro. Em segundo lugar, em queda, o ex-vice-presidente Joe Biden, com 17%, redução de 11 pontos.

Ataques por todos os lados

Após a vitória nas primárias de New Hampshire e o empate técnico no caucus de Iowa com Pete Buttigieg, ex-prefeito de South Bend, Indiana, se esperava que o senador de Vermont fosse um dos principais alvos do novo debate democrata.

E foi exatamente o que aconteceu, mas os primeiros ataques foram direcionados a Bloomberg. Poucos minutos depois de iniciado o debate, a senadora de Massachussets Elizabeth Warren apontou que todos ali concorriam contra um bilionário com histórico de ofensas a mulheres, mas ela não se referia à Donald Trump. “Veja bem, eu apoiarei qualquer candidato nomeado, mas nós correremos grandes riscos se substituirmos um bilionário arrogante por outro.”

Um dos principais concorrentes na disputa entre os “moderados”, Pete Buttigieg também não perdeu tempo em atacar Bloomberg, aproveitando para colocar Sanders na roda.

“Nós podemos acordar daqui duas semanas, após a Super Terça, e os únicos candidatos sobrando serem Bernie Sanders e Michael Bloomberg, as duas figuras mais polarizantes nessa disputa”, disse Buttigieg.

“Se falar sobre as necessidades e as dores da classe trabalhadora tão negligenciada é ‘polarizante’, eu acho que você usou a palavra errada”, devolveu Sanders.

Após o primeiro gancho contra Bloomberg, a senadora Warren direcionou sua mira para Pete Buttigieg e a senadora de Minnesota Amy Klobuchar, tendo como tópico seus planos para saúde pública, dizendo que enquanto o do primeiro não passava de um PowerPoint, o da segunda era um mero post-it.

Os moderadores passaram a palavra a Joe Biden, quase excluído do debate até aquele momento, e tal qual tem sido sua principal linha de argumentação, ele afirmou ser a maior autoridade no assunto entre os pré-candidatos.

“Sou o único presente aqui que realmente conseguiu fazer alguma coisa sobre a saúde”, disse ele. “Eu sou o cara que o presidente Barack Obama disse ‘vá conseguir os votos que precisamos para o Obamacare’”.

Um dos momentos mais exaltados do debate ocorreu quando a senadora Amy Klobuchar foi confrontada sobre o fato de não ter conseguido dizer o nome do presidente do México ou qualquer uma de suas políticas, mesmo sendo o país latino um dos principais parceiros comerciais dos EUA.

A senadora buscou se explicar, curiosamente citando sua experiência na capital ao lidar com questões bilaterais dos dois países. Foi quando Pete Buttigieg pegou a deixa e a colocou contra a parede questionando-a como ela não sabia o nome do presidente mexicano, uma vez que ela está no comitê que supervisiona a segurança entre as fronteiras.

“Você está querendo dizer que eu sou burra ou está querendo fazer graça da minha cara?”, respondeu Klobuchar.

Depois da intensa discussão entre os dois candidatos, Elizabeth Warren saiu em defesa da senadora de Minnesota.

Bloomberg, a vítima favorita

Ainda que Sanders tenha sofrido ataques, o principal alvo da noite continuava sendo Bloomberg, principalmente pelo seu histórico como prefeito e a sua polêmica política de segurança pública, o stop and frisk (Pare e reviste, em tradução livre), em busca de armas.

De acordo com dados oficiais, cerca de 5 milhões de pessoas foram paradas para revista pela polícia, e 90% delas eram negras ou latinas , sendo que menos de 1% de fato portavam armas.

Questionado repetidamente sobre isso, Bloomberg afirmou que se arrependia e pedia perdão pela medida. “Nós paramos gente demais”, disse ele, ainda buscando contemporizar afirmando que o crime foi reduzido durante seus mandatos.

Bloomberg também não se saiu bem quando uma das moderadoras, dentro do tópico transparência, questionou por que ele não tornava pública sua declaração de renda. “Infelizmente ou felizmente, eu ganho muito dinheiro, faço negócios por todo o mundo e o número de páginas provavelmente estará na ordem dos milhares”, ele respondeu.

Confrontado sobre as denúncias de que suas empresas eram ambientes hostis às mulheres, esquivou-se com números sobre a quantidade de mulheres com posição de liderança em suas empresas, fundação e em sua administração na prefeitura.

“Eu espero que vocês tenham notado qual foi sua defesa: ‘eu fui legal com algumas mulheres’”, interveio a senadora Warren. “Isso não é suficiente. O prefeito precisa assumir responsabilidade sobre algo que busca esconder, como os inúmeros acordos judiciais de confidencialidade que ele fez com mulheres a respeito de assédio sexual e discriminação de gênero no local de trabalho.”

Ao ser questionado se ele estava disposto a permitir que essas mulheres tornassem públicos tais acordos, tanto por Warren quanto por Joe Biden, o ex-prefeito afirmou que honrará a confidencialidade dos acordos porque esse seria o desejo de ambas partes.

A vaia foi estrondosa.

Sanders, alvo e atirador

Em tom combativo, Sanders também buscou responder à altura, ainda que não de forma beligerante, sobre os principais questionamentos direcionados a ele. Sobre a liberação de seu histórico médico após o infarto em 2019, ele afirmou tê-lo feito e completou: “Tentem me acompanhar nos comícios de campanha, com dois a três eventos por dia, e veja como todos vocês se saem”.

Sobre seu plano para combater o aquecimento global, ele afirmou que é preciso agir de maneira “incrivelmente ousada” dentro dos próximos seis a sete anos. “Nós estamos lutando pelo futuro desse planeta. E o Green New Deal, que eu apoio, criará até vinte milhões de empregos bem remunerados ao passo que afastamos nossa matriz energética dos combustíveis fósseis para uma que seja eficiente e sustentável. Garantir que tenhamos um planeta saudável e habitável para nossos filhos e netos é mais importante que os lucros da indústria do combustível fóssil.”

Questionado sobre uma publicação em sua conta de Twitter na qual dizia a frase “Bilionários não deveriam existir”, Sanders também não recuou. “Nós temos uma redistribuição de renda grotesca e imoral”, afirmou. Mais uma vez tendo Bloomberg como alvo, o senador apontou que o ex-prefeito possui uma riqueza superior ao total de 125 milhões de norte-americanos na base da pirâmide do país. “Isso é errado e imoral. Isso não deveria acontecer quando se tem 500 mil pessoas dormindo na rua e quando temos jovens que não podem arcar com os custos de uma faculdade.”

Em outra oportunidade, o enfrentamento entre Sanders e Bloomberg foi sobre a proposta de lei do senador sobre trabalhadores terem maior participação nas decisões das corporações em que trabalham, assim como maior participação nos lucros gerados por elas.

“Eu não consigo pensar em maneiras mais fáceis de Donald Trump se reeleger do que ouvir essa conversa”, devolveu Bloomberg. “Nós não vamos acabar com o capitalismo. Outros países tentaram isso, se chamava comunismo. Não deu certo.”

No vácuo do ataque de Bloomberg, Sanders foi questionado por um dos moderadores sobre uma pesquisa encomendada pelo canal MSNBC e o Wall Street Journal em que dois terços dos eleitores estavam desconfortáveis com um candidato socialista à presidência.

“Qual foi o resultado dessa pesquisa, quem estava ganhando?”, replicou Sanders de maneira retórica. “Valeria a pena você mencionar isso.” Na sondagem, o senador tem 27% nas intenções de voto, bem à frente do segundo colocado, o ex-vice-presidente Joe Biden, com 15%.

Argumentando sobre sua suposta ideologia comunista, Sanders então respondeu a Bloomberg que ele defende uma social-democracia. “O problema é que já vivemos em uma sociedade socialista. Nós temos o socialismo para os muito ricos e um individualismo austero para os pobres.”

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Vinicius Gomes Melo

Formado em Relações Internacionais. É escritor, jornalista e roteirista. Autor do livro de ficção histórica "Entre Espelhos e Fumaça" e coautor de "Bernie Sanders: a revolução política além do voto"

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