Eleições 2020

EUA: Bernie Sanders, o socialista, está de volta

Em outro sinal de avanço de uma nova esquerda, ele lançou candidatura à Presidência e recebeu apoio ainda maior que em 2016. Mas há obstáculos à frente — em especial na cúpula do Partido Democrata

Por Vinicius Gomes Melo

* Originalmente publicado no blog O Internacionalista, de Outras Palavras, em 21 de fevereiro de 2019

Ele está de volta. Menos de 24 horas após anunciar que concorreria mais uma vez à eleição presidencial norte-americana, o senador Bernie Sanders arrecadou quase 6 milhões de dólares em doações individuais para sua campanha. O valor é quatro vezes maior do que ocorrera em 2015 — e foi doado por 223 mil pessoas, o que resulta numa contribuição média de 27 dólares – um número quase cabalístico e que ficou marcado como símbolo da rejeição de Sanders às doações milionárias para campanhas políticas.

Mas a pergunta que não quer calar é: será que agora o Partido Democrata permitirá que Sanders, um senador sem filiação partidária, um autoproclamado socialista democrático e um outsider tenha uma chance real nas eleições de 2020?

Passados três anos após o apocalipse da noite de 9 de novembro de 2016, na qual, Donald Trump deixou para trás Hillary Clinton ainda é cedo para dizer se oo partido lambeu suas feridas e aprendeu suas lições.

À época, o outrora caricato senador de 74 anos, quase derrotou Hillary nas primárias do partido e, segundo dados, poderia ter tido uma verdadeira chance de derrotar Trump. Entre as dificuldades de Sanders estava a pouca penetração entre as comunidades negras e latinas, onde a ex-secretária de Estado nadou de braçadas. Mas esses não foram os votos que definiram a eleição de 2016, mas sim aqueles que vieram dos chamados white blue-collars, a classe trabalhadora predominantemente branca no Meio-Oeste norte-americano – especialmente nos Estados de Michigan, Indiana, Winsconsin e West Virginia – que já haviam demonstrado sua rejeição à Hillary meses antes nas primárias democratas, principalmente por identificá-la como uma aliada da elite econômica do país que avassalou com a classe média norte-americana.

Seja como for, depois de apostar todas suas fichas na força de Hillary e contando com o peso do apoio de um Barack Obama de saída da presidência, o Partido Democrata se viu em frangalhos e sem líderes imediatos para juntar os cacos. Ironicamente, coube à Sanders esse papel, ainda que não filiado ao partido.

“Nos últimos dois anos, Sanders tem estabelecido a agenda política do partido Democrata. Sua candidatura de 2016 alterou completamente o horizonte político, ao ponto de a maioria dos democratas, hoje, olharem o socialismo democrático com bons olhos”, escreveu Nathan Robinson, editor da Current Affairs e um dos poucos a afirmar, ainda no início de 2016, que se Bernie Sanders não fosse o candidato democrata, Donald Trump se tornaria presidente.

Ao fim de sua campanha presidencial, há três anos, Sanders iniciou um movimento-organização chamado Our Revolution, cujo objetivo seria “envolver as pessoas no processo político e trabalhar para eleger candidatos progressistas”.

As eleições legislativas do país, em novembro de 2018, ofereceram uma demonstração do potencial incendiário que o campo progressista tem no país. Este potencial foi simbolizado pela eleição de Alexandria Ocasio-Cortez. Nascida no Bronx e filha de imigrantes porto-riquenhos, ela tornou-se ao mesmo tempo, a mais jovem congressista dos EUA e o maior símbolo da nova esquerda do país. Em 2016, Ocasio-Cortez trabalhou na campanha de Sanders.

Desafios à vista

No livro Bernie Sanders e a eleição que não terminou – de autoria deste que escreve e do  jornalista Glauco Faria – foram delineadas alguns dos pilares que sustentaram a campanha do senador de Vermont e galvanizaram as primárias democratas. Entre essas, cabe destacar o engajamento espontâneo, a participação da juventude e a gigantesca arrecadação individual que chegou a rivalizar com os poderosos financiadores de Hillary Clinton.

O que se seguiu na esteira do anúncio de sua candidatura para 2020 demonstra que essa base de apoio popular pode ser ainda maior, o que não quer dizer que Sanders não terá dificuldades. A começar por sua própria “carta de intenções”: educação superior de graça para todos, um sistema único de saúde (olha só…) por todo país, aumentar o salário-mínimo para 15 dólares/hora, e talvez o mais ambicioso de todos:substituir, dentro de 10 anos, 100% da matriz energética do país para fontes limpas e renováveis através do Green New Deal (capitaneada por Ocasio-Cortez e outros progressistas do partido Democrata) – além de claro, aumentar os impostos para as grandes fortunas.

Ainda é difícil saber como o partido Democrata lidará com isso, correndo o risco de ganhar a temível pecha de “esquerda-comunista”, especialmente numa eleição contra Donald Trump, cujas políticas estão diametralmente opostas à de Sanders.

Outro problema para o senador Independente é um “bom problema”: as outras candidaturas progressistas que concorrerão com ele nas primárias. Até o momento contabiliza-se: a deputada Tulsi Gabbard, do Havaí, sendo a primeira hindu e samoana-americana a se eleger no Congresso em 2012; a senadora Kristen Gillibrand, de Nova York, que promete combater a corrupção corporativa no país; e a principal delas, Elizabeth Warren, veterana senadora de Massachussets, cuja visão política é mais próxima de Sanders e aquela que, provavelmente, disputará os mesmos votos com ele.

Como o site Politico apontou, em um texto intitulado Bernie Sanders conseguirá sobreviver à Esquerda Moderna?, um dos pontos que jogam contra Sanders, e a qual ele não pode fazer nada a respeito, é que ele ainda é homem, branco e…bem, velho. O que o destoaria das estrelas na constelação da nova esquerda norte-americana, cada vez mais diversificada e feminina.

Somando-se a isso, há ainda as denúncias de sexismo e assédio sexual envolvendo assessores na campanha de 2016. Apesar de já se desculpar publicamente pelos incidentes e garantir que os envolvidos não estão mais presentes no estafe, o respingo do escândalo em Sanders pode ser inevitável, e sua campanha de 2020 precisará lidar de maneira mais contundente com esses fatos do que foi feito em 2016.

A seu favor, todavia, está seu currículo político: o Independente servindo no Congresso há mais tempo na História; considerado o político mais popular do país, em 2017; o parlamentar de oposição mais eficaz quando o Congresso era liderado pelos republicanos; e claro, ser o candidato que teria tido uma grande chance contra Trump em 2016 certamente o qualifica para por essa teoria à prova em novembro de 2020.

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Vinicius Gomes Melo

Formado em Relações Internacionais. É escritor, jornalista e roteirista. Autor do livro de ficção histórica "Entre Espelhos e Fumaça" e coautor de "Bernie Sanders: a revolução política além do voto"

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