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Os fantasmas do natal passado de Michael Bloomberg

O bilionário e ex-prefeito de Nova York afirma ser o mais apto a vencer Donald Trump, porém, seu passado parece colocá-lo no mesmo rol do atual presidente dos EUA

O bilionário Michael Bloomberg fez sua estreia nos debates das prévias democratas na última quarta-feira (19), em Las Vegas – e foi uma noite terrível para ele. Muitas vezes glorificado como um grande exemplo americano dos self-made men, cuja imagem parece ser do sempre-confiante-sábio-de-tudo-homem-branco, Bloomberg foi demolido em poucos minutos. Junto aos seus cacos que sobraram daquela noite, ficaram duas manchas indeléveis: a do racismo e do machismo.

Magnata que fez sua fortuna com a Bloomberg LP, uma empresa de tecnologia e dados financeiros fundada pelo candidato em 1981, e prefeito de Nova York por três vezes – duas pelo Partido Republicano e uma como Independente – foi o último a entrar na disputa.

Desde que iniciou sua campanha presidencial, o ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg tem sido alvo de críticas – tanto pela maneira como entrou no pleito, quanto por polêmicas declarações que fez no passado. Até o momento, já gastou mais de 300 milhões de dólares em sua campanha que, mesmo recente, já é a mais cara da história. No início de fevereiro, foram 10 milhões de dólares por 60 segundos durante o Super Bowl.

No entanto, nem todo o dinheiro do mundo é capaz de apagar os fantasmas do passado de Michael Bloomberg, que agora voltam para assombrá-lo como nunca antes.

Bloomberg racista

O principal calcanhar de Aquiles de Bloomberg tem sido sua infame política de segurança pública stop and frisk (Pare e Reviste, em tradução livre), durante seu mandato como prefeito, considerado uma política racista. Segundo um levantamento, 87% de todas as pessoas paradas e revistadas, indiscriminadamente, eram negras ou latinas.

Ao contestar tais números, no penúltimo ano de seu mandato, em 2013, Bloomberg foi veemente: “Eu acho que paramos desproporcionalmente brancos demais e as minorias de menos. É exatamente o oposto do que dizem”.

Dois anos depois, já fora da prefeitura, ele voltaria a carga sobre sua política: “Noventa e cinco por cento dos assassinatos, assassinos e vítimas se encaixam em um perfil. Você pode pegar a descrição, tirar uma xerox e passar para todos os policiais: eles são homens, de minorias, de 16 a 25 anos. Isso é verdade em Nova York. Isso é verdade em, virtualmente, todas as cidades […] Nós colocamos todos os policiais em bairros com minorias. Sim. Isso é verdade. Por que fizemos isso? Porque é ali que o crime está”.

Concluindo sua argumentação, Bloomberg disse: “A maneira que você tira as armas das mãos de crianças é jogando-as contra a parede e revistando-as”.

Ao anunciar sua candidatura, Bloomberg sabia que isso voltaria para assombrá-lo e que não havia saída a não ser dizer que errou. “Eu não entendia, à época, o impacto total que as revistas tinham nas comunidades negras e latinas. Eu estava totalmente focado em salvar vidas. Mas como sabemos, boas intenções não são boas o suficiente”.

Até o momento, as declarações feitas ao longo dos anos parecem pesar muito mais do que o pedido de desculpas apenas quando se tornou candidato à presidência.

Em conversa com o podcast The Intercepted, o professor Nikhil Pal Singh, da New York University, ponderou que, por conta do stop and frisk, uma eventual nomeação de Bloomberg poderia resultar no eleitorado das comunidades negras decidindo votar em Donald Trump – algo impensável poucos meses atrás, tanto pelo histórico do voto negro junto aos democratas, quanto pela própria figura do atual presidente. Em 2016, Trump teve apenas 8% desses votos.

Bloomberg machista

Nos últimos dias, ressurgiu um documento chamado The Portable Bloomberg: The Wit and Wisdom of Michael Bloomberg (O Bloomberg Portátil: A sagacidade e sabedoria de Michael Bloomberg), que é uma coletânea publicada em 1990 que, entre outras coisas, conta com tais aspas:

Se as mulheres quisessem ser admiradas por sua inteligência, elas iriam a uma livraria, e não na [loja de roupas] Blommingdale’s.”

Eu digo com toda a certeza que qualquer mulher que tenha respeito próprio e que passe por uma área de construção e não recebe assobios, irá dar meia-volta e passar novamente até receber um.”

O histórico machista de Bloomberg, porém, vai muito além disso. Como apontado no debate presidencial em Las Vegas, no dia 19, recaem sobre o bilionário a sombra de inúmeros acordos judiciais referentes a processos de assédio sexual.

De acordo com a Business Insider, contabiliza-se 40 processos de 65 pleiteadores contra a Bloomberg LP e o próprio Michael Bloomberg, que compreendem acusações de discriminação por gênero, raça, condição de deficiência e até por gravidez. Segundo as acusações, a Bloomberg LP foi descrita como um local tóxico, sexualizado e predatório contra as mulheres.

Um dos casos mais notáveis refere-se a Sekiko Sakai Garrison, que processou a empresa de Bloomberg no final dos anos 1990, por discriminação no ambiente de trabalho. Usando como gancho esse processo, a revista Elle também fez um compêndio de frases de Bloomberg:

Esse cara é cego ou burro? Por que diabos ele está casando com você?” Bloomberg teria dito isso a Garrison após ela anunciar que iria casar. Bloomberg também teria dito tempos depois: “Ainda está noiva? Ele é tão bom na cama assim ou o seu pai o pagou para se livrar de você?”.

Por outro lado, quando um funcionário anunciou que iria se casar, Bloomberg teria dito: “Todas as mulheres façam uma fila para ele receber sexo oral como presente de casamento”.

Sobre uma funcionária que estava com dificuldade em encontrar uma babá, Bloomberg teria dito: “É a porra de um bebê! Tudo o que ele faz é comer e cagar! Ele não reconhece a diferença entre você e qualquer outra pessoa! Tudo o que você precisa é encontrar alguma negra que nem precise falar inglês que possa salvá-lo caso o prédio pegue fogo”.

Outra frase para uma funcionária recém-contratada teria sido: “Se os clientes dissessem a você para se deitar e tirar sua roupa para que eles pudessem transar com você, você faria isso?”

O jornal The Guardian também fez uma coletânea semelhante, cujo título talvez ilustre melhor o raciocínio do candidato: “Eu gosto de teatro, de jantar e de ir atrás de mulher. Deixe-me colocar dessa maneira: eu sou um bilionário solteiro e heterossexual em Manhattan. O que você acha? É um sonho molhado”.

Bloomberg afirma ser o melhor candidato para derrotar o pior presidente dos EUA. O interessante é que, lendo apenas as aspas e desconhecendo seu autor, tais frases poderiam muito bem ser atribuídas ao próprio Donald Trump.

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Vinicius Gomes Melo

Formado em Relações Internacionais. É escritor, jornalista e roteirista. Autor do livro de ficção histórica "Entre Espelhos e Fumaça" e coautor de "Bernie Sanders: a revolução política além do voto"

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